domingo, 20 de dezembro de 2009

Escrutínios


A única maneira que temos de sobreviver sem a vida antiga, é se tivermos uma nova. Porque precisamos sempre de uma vida, mas isso também já depende do que cada um considera a sua Vida e de quantas vidas precisa.


Ontem era vazio. Maquinalmente lá ia escrevendo os caracteres surdos ditados por outrem, vestida com a minha capa de Super Estudante frustrada e com toda a minha mediocridade a encabeçar o cortejo fúnebre da minha massa cinzenta.

Hoje sou dor de cabeça. Verter o Nada ultimamente faz-me isto. E quem me dera conseguir ver as coisas com clareza, pensar em todos os prós e contras de desistir, partir, ficar ou persistir. As distâncias físicas são sempre encaradas como o fim do mundo, mas pior é quando as distâncias psicológicas se começam a encarar. O gelo congela aquilo com que era suposto sentir, o fogo destrói aquilo com o que era suposto ver.


Agora sou melancolia. Pensar demais em todos os fios de cabelo que tenho faz-me chegar à conclusão de como estão espigados! Os nós de cabelo que deitei pelo ralo, que precisei de deitar pelo ralo, que se partiram por si só, que não quiseram fazer parte do meu couro cabeludo… ninguém faz ideia. Um dia milhões deles me vão abandonar, sem retorno, tal como milhões já o fizeram; mas eu sei que alguns, muito poucos, vão ficar até ao fim: branquinhos, lindos, frágeis na maneira como se mantém, no entanto com uma força sem igual para se agarrarem. Só a mim me cabe tratar bem deles, não os lavar demasiadas vezes, porque ao tentar que estejam demasiado limpos, só faço com que apodreçam; potenciar a saúde deles, hidratar os mais “secos” e retirar os excessos dos mais “oleosos”. A maneira como despenteiam e embaraçam só demonstra a categoria do que encabeçam e eu não os posso censurar por isso.


Daqui a bocado vou ser sonho. Vou estar bem longe daqui, a dirigir um filme tão marado como tudo aquilo que vomito da ponta dos dedos. E não vou acordar, não vou fazer pausa para café, porque o café que se bebe no mundo consciente é mais queimado que as minhas entranhas Agora.


Amanhã serei cansaço, com olheiras até aos joelhos e tudo voltará ao normal. Sem nada reflectido, nem posição nenhuma tomada, sem futuro delineado. Não tem importância: eu lá vou vivendo, devagar, cansada, a sonhar, melancólica, com dores de cabeça, tantas vezes vazia mas cheia de Vida Antiga e a abarrotar de Vida Nova, cada dia, todos os dias.


E viva o Natal, como me aborrece!

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