Na noite da memória, pus todas as melodias da minha caixa de segredos a tocar; e recordei
todas as emoções perdidas na estrada, das quais só sobram fragmentos;
todo o amor depositado na pele, do qual só resistem umas chagas;
todo o desprezo perdido na alma, do qual só sobra uma centelha de orgulho;
todo o ódio atirado no coração, do qual se ergue uma fortaleza;
E revivo: como se fosse hoje que me tivessem queimado a pele com amor, que me tivessem despedaçado as emoções, que a centelha de orgulho se desvanecesse e que a fortaleza desabasse. É impossível sentir quando somos carcaças vazias que, maquinalmente, lá vão agindo conforme ordens, necessidades fisiológicas ou rotinas. E a melancolia, a solidão e as memórias, que são coisas tão fortes, quase tão palpáveis como os órgãos, não preenchem. Qualquer singela brisa me derruba, mas não me acorda. Levanto-me e continuo como se nada fosse; mas para que continuo? Para viver de memórias já tão secas de tanto serem espremidas? Para esperar eternamente por algo que, quando mais perto está, mais longe parece estar? As memórias não são combustível duradouro para ninguém, se não existirem metas, o combustível acaba e ficamos a meio do caminho; do quê? Lá está, sem metas não há meios caminhos, porque não existem caminhos para percorrer.
No entanto, é vazio o que me preenche. Tenho metas, não tenho caminhos; ou pelo menos não os vejo: sujeito-me a ter de caminhar às cegas para conseguir lá chegar. Pois não tivesse sido a meta a verdadeira responsável pela minha cegueira.
“O homem é do tamanho do seu sonho.” – Fernando Pessoa
Perguntaram-me há uns tempos:
Que queres ser quando fores grande?
Quero ser o mundo. Quero ser todos os habitantes do planeta, quero ter toda a vontade dos seres vivos, quero toda a força da natureza, quero todo o amor das pessoas.
O meu sonho é grande: é, no fundo, o sonho de qualquer mortal. Não há sonho mais banal e, mesmo assim, é o sonho mais bonito do planeta. Um sonho que é como uma música que comanda os passos de uma dança, tanto bela como eterna, dure o tempo que durar. O meu sonho é a meta de que preciso para que o meu combustível dure. No entanto, por vezes esqueço-me do essencial: a felicidade não é uma meta, mas sim uma caminhada, uma longa e feliz caminhada. É necessário não deixar a cegueira apoderar-se da nossa mente e do nosso coração, porque inevitavelmente vai fazer com que não seja possível aproveitar todo o amor, todo o orgulho, todas as emoções e todas as fortalezas que se erguerão à nossa passagem.


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